Associação 64/68 Anistia
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Associação 64/68 destaca importância do advogado Tarcísio Leitão na defesa dos trabalhadores

A morte do advogado e militante comunista Tarcísio Leitão, ocorrida no dia 1º de agosto último, mereceu nota de pesar da Associação 64/68 Anistia, a qual foi ressaltada sua importância nas lutas sociais e políticas em cinco décadas.

Tarcísio Leitão foi advogado trabalhista dos mais conceituados e deixou verdadeira escola de profissionais do Direito nessa área. O falecimento de Tarcísio Leitão causou consternação em Fortaleza.

Tarcísio Leitão

Eis a íntegra da nota da Associação 64/68 Aniatia:

“A Associação 64/68 Anistia se junta às inúmeras manifestações de pesar da sociedade cearense pelo falecimento do advogado Tarcísio Leitão, ex-preso político, anistiado e filiado à nossa entidade.

Com a morte de Tarcísio Leitão, ocorrida ontem, o Ceará e o Brasil perdem um batalhador das causas populares e nacionais nos últimos 50 anos. A esquerda brasileira, representada por diferentes partidos, fica órfã de um quadro de grande importância na longa trajetória de lutas contra o arbítrio, a exclusão social e da defesa da democracia. Um nome que transcende as divergências político-partidárias porque ele sempre teve pensamento grande, principalmente quando o assunto era a união em torno de uma causa maior: o fortalecimento das conquistas sociais e a preservação do regime democrático.

Os meios jurídicos ficam também desfalcados de um grande defensor dos trabalhadores. Tarcísio Leitão foi um mestre que fez escola e deixa pelo menos duas gerações de valorosos e destacados discípulos na área do Direito trabalhista, os quais, sem dúvida nenhuma, saberão transmitir para a posteridade, para os futuros profissionais, o legado de conhecimento e abnegação deixado pelo grande advogado e homem público.

O falecimento de Tarcísio Leitão abre outra lacuna: a ausência, nas discussões de mesas redondas na mídia, seminários e conferências, de um brilhante debatedor, enérgico e firme na defesa de seus princípios, mas sempre respeitador dos adversários, com os quais poderia ter grandes divergências, jamais inimizade pessoal.

Nesses embates, haverá falta do bom humor de Tarcísio Leitão, herdeiro legítimo da sadia irreverência cearense, tão bem representada por outro grande nome do Direito, o poeta Quintino Cunha. As perseguições que sofreu durante sua caminhada de homem público e defensor dos trabalhadores nunca tiraram a alegria de Tarcísio Leitão.

Engajou-se muito jovem nas lutas políticas e sociais, filiou-se ao então Partido Comunista Brasileiro (PCB). Graças a essa atuação, elegeu-se vereador de Fortaleza. Participou de memoráveis campanhas em favor dos interesses nacionais (“O Petróleo é Nosso”, entre outras) e dos trabalhadores, principalmente das reformas de base, no governo do presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964.

Esse mesmo golpe militar motivou a cassação do mandato de vereador de Tarcísio Leitão. Além de cassado, ele foi preso e levado para a Ilha de Fernando de Noronha. Libertado depois de longa temporada no cárcere, passou a fazer parte da resistência à ditadura militar, tendo enfrentado, por isso, novas prisões, a pior delas em 1972, quando foi torturado num quartel do Exército, em Fortaleza.

A tortura não aquebrantou o ânimo nem a disposição de luta de Tarcísio Leitão. Ele continuou na resistência, tendo participado das campanhas em favor da Anistia e pelas Diretas Já, no final dos anos 70 e metade da década de 1980, respectivamente.

Com a redemocratização, Tarcísio candidatou-se a vários cargos eletivos, enfrentando dessa vez o poderio econômico em vez da força militar. Nos 50º aniversário do golpe militar de 1964, em 2014, participou na condição de convidado – juntamente com outras pessoas perseguidas e presas pelo regime ditatorial – do projeto Memória Oral por Verdade e Justiça, promovido pela Associação 64/68 Anistia em parceria com o Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp) da Assembleia Legislativa. Tarcísio Leitão era assim, sempre disposto a colaborar com as causas do povo. Por isso, seu exemplo de luta ficará como exemplo para as gerações atuais e futuras. Tarcísio Leitão vive!

Honório Silva – presidente”.